30 setembro, 2017

Miss Algrave




Talvez este livro de contos seja o mais engraçado da autora (não que algum outro seja de fato engraçado rs).
Um livro que foi encomendado e que deixou Clarice um pouco incomodada com o fato de ser algo fixo e que não partia de sua rotina de escrita descompromissada com regras do mundo da publicação literária.


Como ela já havia dito certa vez , escrevia quando sentia vontade. Era algo orgânico e não taxativo e rígido.


O editor dela ligou contando três histórias onde a temática abordada era de cunho sexual. A autora ficou insegura , mas as histórias acabaram por vir com muita naturalidade, fato que a deixou espantada. Nascia o livro - A via crucis do corpo, um livro de contos que trataria sobre o corpo , sobre o sexo e sobre as pessoas e suas descobertas.


No primeiro capítulo do livro, a introdução, Clarice nos explica como tudo se deu para que ela publicasse o livro com este tipo de conteúdo, que era bem diverso de sua obra no geral.
Ela propõe ao seu editor que adotasse um piseodonimo , mas ele discorda e este livrinho acabou por ser publicado com o seu nome real.


Miss Algrave - Uma moça ruiva , religiosa, virgem , datilógrafa e moradora de Londres.

Vivia sua vidinha estreita e repleta de julgamentos contra a demonstração pública de libido entre os casais no parque que frequentava e dos cachorros nas ruas de Londres. Tudo isso que parecia sujo e desnecessário. Até pensar em si mesma como vindo de uma união sexual entre seus pais lhe causava arrepios.



Solteira, é claro, virgem, é claro. Morava sozinha numa cobertura em Soho. Nesse dia tinha feito suas compras de comida: legumes e frutas. Porque comer carne ela considerava pecado.Quando passava pela Piccadilly Circus e via as mulheres esperando homens nas esquinas, só faltava vomitar. Ainda mais por dinheiro! Era demais para se suportar. E aquela estátua de Eros, ali, indecente




Num fim de semana , aconteceu uma visita de outro mundo, de Saturno para ser exata, este ser a despossa e a transmuta em uma mulher, que finalmente consegue entender o mundo e seus prazeres (ainda hoje , nós mulheres devemos nos justificar quando o assunto é sexo).


Sei que é algo surreal o “E.T.” neste conto, mas acredito que Algrave nunca conseguiria ser alcançada por um homem humano, tal era sua moralidade burra.


Gosto como esta oportunidade a faz se entregar ao ser de um mundo desconhecido, assim como o sexo era pra ela até aquele momento.



Ela o amava e ia esperar ardentemente pela nova lua cheia. Não quis tomar banho para não tirar de si o gosto de Ixtlan. Com ele não fora pecado e sim uma delícia. Não queria mais escrever nenhuma carta de protesto: não protestava mais.




Pensei num ditado antigo – que a oportunidade faz o ladrão. Assim foi com Miss Algrave. Por repressão, ela deixou de se tornar quem era de fato.


E vermelho era sua cor, não dizem que vermelho é a cor do pecado dona Algrave?.








Clarice Lispector - Todos os Contos
       Editora Rocco - Capa Dura - 656 Pgs
        Organizado por Benjamin Moser





Marcia Cogitare









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