22 março, 2017

Perfil de seres eleitos




E Clarice resolveu dar uma de José Saramago, só que em vez de transformar a morte num personagem, ela consegue ser ainda mais abissal, dando vida ao ser.
Vou tentar em minhas limitações tirar algo que faça sentido para mim (e pra vocês) neste texto.



Guiava-o a vontade de descobrir o próprio determinismo, e segui-lo com esforço, pois a linha verdadeira é muito apagada, as outras são mais visíveis



Nas primeiras linhas do texto eu pensei se tratar de uma pessoa e seu trabalho, como numa linha de montagem ou algo semelhante, mas estava terrivelmente enganada. Embora o ser fosse tratado quase como uma pessoa.


É sempre muito complicado tentar explicar coisas invisíveis, parece uma batalha perdida. Mas irei me esforçar, prometo. 

O ser sempre fez parte de nossa vida. Ele fica ali de canto, até quando chega alguma crise ou algo que nos tire de nossas certezas.
Nem sempre nos damos conta de sua existência e de seu trabalho interno incessante.


Afastava de si as verdades menores que terminou não chegando a conhecer. Queria as verdades difíceis de suportar


Neste conto o ser se mostra muito decepcionado conosco por não o reconhece-lo como ele de fato é.


Não compreenderam que para o ser, ter se reunido, fora trabalho de despojamento e não de riqueza. E, por equívoco, o ser foi eleito



Para nos dar alguma coisa de sólido para concatenar as possíveis ideias, Clarice nos dá a ideia da fotografia , o retrato. 
As pessoas tiram fotos, hoje , são as apaixonadas selfies e pensam serem elas exatamente naquela imagem. E não se dão conta que a imagem é apenas uma representação muito superficial delas mesmas.


Por simplificação e economia de tempo, haviam fotografado o ser. E agora não se referiam ao ser, referiam-se à fotografia


E não podiam arriscar: seria a fotografia, ou nada. O ser, por uma questão de bondade, tentava às vezes imitar a fotografia a fim de valorizar o que os outros tinham, isto é, a fotografia. Mas não conseguia manter-se à altura simplificada do retrato



Esquecem que existe algo subterrâneo, o ser. Que tentando trabalhar num interior compatível com essa imagem exterior ,  fracassa inevitavelmente.

O texto é claro em sua mensagem, não sabemos como lidar como nosso ser, apenas temos uma consciência parcial e muitas vezes displicente.


Gostava da profunda alegria dos outros, por dom inato descobria a alegria dos outros. Por dom, era também capaz de descobrir a solidão que os outros tinham em relação à própria alegria mais profunda



Talvez por isso nos escondemos em nossa formação social e até em nossos traumas e defeitos, que garantimos ser fruto de um passado que não nos favoreceu para sermos melhores.


E nisso o ser vai percorrendo outros caminhos, como o sangue que encontra a veia obstruída e é obrigado a abrir novos espaços e continuar o seu trabalho.



Leiam a resenha de minha companheira de projeto Silvia no Blog Reflexões de Silvia
Clique Aqui






Clarice Lispector - Todos os Contos
       Editora Rocco - Capa Dura - 656 Pgs
        Organizado por Benjamin Moser

                   
                    Marcia Cogitare


4 comentários:

  1. Olá, Marcia!
    Sua análise ficou incrível!
    Gostei demais de tudo o que você escreveu e das percepções que conseguiu extrair desse texto que, para mim, foi incompreensível.
    Um beijo grande!

    ResponderExcluir
  2. Valeu Silvia. E esse deu um baita trabalho.
    Como diz o ditado: É tirar leite de pedra.

    Hug

    ResponderExcluir
  3. Oi Márcia, realmente fiquei sem palavras com a premissa do conto, você conseguiu fazer milagres com essa resenha. Beijinhos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Jade, você não faz ideia de como alguns textos de Clarice vira um parto para resenhar. Tem dias que brigo e fico exausta em refletir nesses contos. É um desafio.

      Hug :D

      Excluir
:) :( ;) :D :-/ :P :-O X( :7 B-) :-S :(( :)) :| :-B ~X( L-) (:| =D7 @-) :-w 7:P \m/ :-q :-bd

Vai ser muito bom saber o que você achou dessa postagem!
Opine!