26 abril, 2017

Menino a bico de pena




Ainda falando de crianças. Iremos acompanhar o início de vida e do desenvolvimento de uma criança bem pequena. Pela descrição do conto, este garotinho deve ter no máximo por volta de um ano de idade.



Como conhecer jamais o menino? Para conhecê-lo tenho que esperar que ele se deteriore, e só então ele estará ao meu alcance. Lá está ele, um ponto no infinito. Ninguém conhecerá o hoje dele. Nem ele próprio


A autora inicia como uma narradora que tudo sabe, que tudo vê. Acompanha o dia a dia desse menino e sua mãe. Suas tentativas em aprender a andar e seus choros entre suas necessidades básicas.


O que é interessante neste conto, é que num dos momentos da narrativa , ela deixa de ser uma observadora externa e migra para o olhar do próprio menino.



Um dia o domesticaremos em humano, e poderemos desenhá-lo. Pois assim fizemos conosco e com Deus


Como ele desde muito cedo aprende a ter sua voz reconhecida (choro), como ele entende que deve se comportar para ter a figura da mãe perto dele, e como ele se reconhece, e é reconhecido neste jogo da vida.




Enquanto chora, vai se reconhecendo, transformando-se naquele que a mãe reconhecerá. Quase desfalece em soluços, com urgência ele tem que se transformar numa coisa que pode ser vista e ouvida senão ele ficará só, tem que se transformar em compreensível senão ninguém o compreenderá, senão ninguém irá para o seu silêncio ninguém o conhece se ele não disser e contar, farei tudo o que for necessário para que eu seja dos outros e os outros sejam meus, pularei por cima de minha felicidade real que só me traria abandono, e serei popular, faço a barganha de ser amado, é inteiramente mágico chorar para ter em troca: mãe



Um texto , lúdico, que aborda um tema que nunca pensamos, ou raramente pensamos. Como se dá as coisas no interior dessas crianças, como é seus pensamentos e sua aprendizagem.
Como eles vão se moldando a vida externa e se descolando desse mundo interior , onde eles reinam absolutos.


Como sempre, uma viagem no abstrato com Clarice.


Me lembrei de certa vez ter lido um livro sobre este assunto, o que me deixou muito perplexa sobre como o autor colocava sobre as mães, um peso excessivo sobre a responsabilidade no desenvolvimento de seus filhos.


Se você tiver coragem para ler o tal livro - chama-se - O brincar e a realidade - D. W. Winnicott 



Leia as impressões da Silvia sobre este conto - No Reflexões de Silvia




*Este conto pertence ao livro - Felicidade Clandestina





Clarice Lispector - Todos os Contos
       Editora Rocco - Capa Dura - 656 Pgs
        Organizado por Benjamin Moser

                   
                    Marcia Cogitare








11 comentários:

  1. Olá, interpretar uma criança é sem dúvidas um grande desafio, o conto trata do assunto de forma peculiar e original. Beijos.

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    1. Alison, este conto é muito interessante a mudança de foco. Como a autora vê os pequenos. Bem, ela foi mãe de dois meninos, certamente usou sua vida como modelo para o texto.

      Hug :D

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  2. Olá.
    Mais um conto para ser refletido e comparado com a realidade. Um tema interessante e muito sensível.
    Beijos.

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    1. Márcia, acho que vc captou a ideia - sensibilidade é a palavra exata para este conto.

      Hug :D

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  3. Marcia!
    A cada novo conta da Calrice que você traz, fico encantada e percebo como ela é maravilhosa em sua escrita de diversas formas.
    Até os bebês tem sua fala... o choro, não é fantástico isso?
    Bom domingo e feriado!
    “A sabedoria é a única riqueza que os tiranos não podem expropriar.” (Khalil Gibran)
    cheirinhos
    Rudy

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    1. Rudy, tenho aprendido muito com estes contos e visto um lado da autora que eu não conhecia ou não tenha percebido quando mais nova. Como a mulher, a mãe - é importante em seus contos.

      Leia Clarice e não se arrependerá.

      Hug :D

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  4. Oi, Márcia!!
    Que texto mais reflexivo esse!! Nunca parei para pensar como os bebê vêem o mundo como se comunicam, gostei muito desse conto da Clarice Lispector e simplesmente lindo.
    Bjoss

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    1. Oi Marta, Clarice sempre me surpreende também. Gostei muito deste conto. Tenho sobrinhos pequenos e acompanho bem de perto o crescimento deles, então estes temas acabam me tocando.

      Hug :D

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  5. Oi!
    Acho bem interessante esse modo que a autora começa o texto como uma observadora e vai se envolvendo com a historia e se tornando um personagens, gostei muito desse texto e ele com certeza acaba nos fazendo refletir !!

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  6. Oi Márcia, esse conto me fez pensar que nessa perspectiva quase nunca deixamos de ser crianças barganhando por amor e atenção, sempre nos modificando de forma a melhor conseguir viver em um meio. A grande questão que ficou para mim é ao que vale ou não se adaptar. Beijinhos

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    1. Jade, somos eternamente carentes e nunca largamos algumas infantilidades né rs.

      Hug :D

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:) :( ;) :D :-/ :P :-O X( :7 B-) :-S :(( :)) :| :-B ~X( L-) (:| =D7 @-) :-w 7:P \m/ :-q :-bd

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