18 janeiro, 2017

Mistério em São Cristovão






É comum muitas pessoas que leem Clarice Lispector intuírem que a autora nos dá uma trolada as vezes. E ela brinca conosco, escrevendo não para um público, mas para si mesma. Como num exercício de oficina de escrita.
Acredito que este texto tenha um pouco disso. 
Que seus críticos almofadinhas não me leiam rs.



Em São Cristóvão no RJ, uma família no doce mês de maio e sua lua cheia, comem seu jantar, e relaxados nessa dinâmica familiar, cada qual segue para seu quarto. Os pais cansados logo adormecem, as três crianças em suas camas, fazem posições impossíveis e também são tragadas pelo sono profundo, a avó com algum incomodo da velhice, também se recolhe e o último membro da família, uma garota magrela de 19 anos, confabulando planos de mudanças em sua cabeça sonhadora e em meio aos seus pensamentos, o bom sono à pega de jeito, interrompendo suas explanações  metafísicas.


O que tornava particularmente abastada a cena, e tão desabrochado o rosto de cada pessoa, é que depois de muitos anos quase se apalpava afinal o progresso nessa família: pois numa noite de maio, após o jantar, eis que as crianças têm ido diariamente à escola, o pai mantém os negócios, a mãe trabalhou durante anos nos partos e na casa, a mocinha está se equilibrando na delicadeza de sua idade, e a avó atingiu um estado. Sem se dar conta, a família fitava a sala feliz, vigiando o raro instante de maio e sua abundância


Nesta madrugada, 3 mascarados invadem o jardim da família em busca de jacinto para complementar suas fantasias carnavalescas (carnaval em maio? muito suspeito isso) e nessa tentativa de afanar os tais jacintos, um rosto branco e fantasmagórico, surge na janela que dá para o jardim.
Os invasores tomam um susto e resolvem abortar a missão, deixando um belo e pomposo jacinto danificado em seu galho partido.



Claro que sabemos que o tal rosto era da garota de 19 e que nada tinha haver com almas de outro mundo. Mas é legal essa pitada de terror no canto, me lembrou muito esses filmes de terror que adora nos pegar desprevenido e nos dar um belo susto.


Mas a casa continuava entre trevas e sapos. E, no jardim sufocado de perfume, os jacintos estremeciam imunes


Mas o assustador mesmo, é você e sua família pensarem que nada os tirará da segurança de suas camas quentinhas enquanto repousam após um dia de trabalho intenso.

Talvez você pense que estes rapazes não passam de sujeitos mal educados e sem qualquer outra intenção maldosa. Pode até ser, mas a violência está contida neste pequeno ato desautorizado de invasão domiciliar.



Sei que iniciei a resenha sem uma perspectiva muito clara e fui mudando no decorrer de minha escrita. Acho que a ideia de falar sobre os contos de Clarice, é justamente se deixar levar e até mesmo por falta de uma percepção mais apurada e limitações interpretativas de minha parte, se prestando ao ridículo algumas vezes (faz parte do processo).



E minha percepção foi mudada aqui, me bateu uma bad. Por perceber que sempre vivemos com medo. Laços de família foi publicado na década de 60 e o medo já estava ali.



É duro pensar que nós brasileiros ainda somos incivilizados (e existe esta palavra?) e nos falta um senso coletivo, onde minha vontade vem num segundo plano, quando se trata da relação com os demais. 


Leiam a resenha da Silvia sobre este conto. 





Clarice Lispector - Todos os Contos
       Editora Rocco - Capa Dura - 656 Pgs
        Organizado por Benjamin Moser

                   
                  Marcia Cogitare


2 comentários:

  1. Achei tão atual esse conto, e não me soou muito a cara da Clarice (não sei pq mas foi a impressão que tive)..
    Apesar de todos os comentários acima parecerem ruins eu gostei muito desse conto :)

    Vocês estão fazendo um trabalho incrível!!

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  2. Maravilhoso!
    É ótimo termos uma interpretação como essa, e é incrível o modo que Clarice nos prega uma certa peça!

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:) :( ;) :D :-/ :P :-O X( :7 B-) :-S :(( :)) :| :-B ~X( L-) (:| =D7 @-) :-w 7:P \m/ :-q :-bd

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