12 fevereiro, 2016

O INTERIOR

Uma jovem comete um suicídio bastante suspeito, em uma vila no interior da China. Desesperada, a mãe da moça procura uma velha amiga, a detetive Liu Hulan, para descobrir a verdade sobre a morte da filha. As investigações aproximam Liu do homem que ama, o advogado David Stark, de uma forma totalmente imprevista, já que ela precisa apurar o que está acontecendo de errado em uma fábrica ligada à empresa em que Stark trabalha. Em suas tentativas de localizar o responsável pelas misteriosas mortes de dezenas de moças chinesas, Liu e David precisam saber em quem confiar e tomar decisões que podem colocar em risco não apenas seu romance como suas próprias vidas.









Lisa See
419 páginas
Rocco


- Policial feminina? Ah! Ela trabalha para o Ministério de Segurança Pública. Sabe o que é esse ministério?                                                                               - Pois nem queira saber! É como se fosse o FBI ou a KGB. Liu Hulan é um de nossos melhores investigadores. Peixe grande, peixe pequeno, tudo é a mesma coisa para ela. Hulan os pesca, puxa a linha, escama, abre e põe na panela. Com Liu Hulan o sujeito está frito!


Uma coisa é viver, outra é apenas falar sobre o que vê. Sempre li e estudei a respeito do “trabalho escravo” na china, condições péssimas de trabalho, insalubridade, jornadas de trabalho desumanas e muitas criticas. Sempre me perguntei o motivo de ser assim e ninguém fazer nada. Essa resposta é complexa demais e não cabe discutir isso aqui.
Devem estar estranhando começar uma resenha assim, verdade? Mas, nesse livro temos todos esses temas e muito mais, e pude ver nele algo que ninguém diz e quando diz parece ser algo não gritante, e não é, a vida no interior da China é muito diferente da vida nas grandes cidades de lá, vou dizer mais abertamente, no interior praticamente não há nada, as condições de vida é precária. Não há encanação, não há energia elétrica (talvez tenha hoje em dia em alguns locais, mas não em todos) e não pode comparar com a visão que temos do Brasil, quando digo precário é sem nada!
As fábricas internacionais são instaladas e quando acabam chegando em um distrito do interior chinês há uma grande comoção, os jovens acham muito atrativo esse trabalho, recebem muito mais do que cultivando a terra dada pelo governo para a sua família e para a família é bem vinda toda ajuda extra monetariamente.
E isso ocorre com Miaoshan, vai trabalhar em uma fábrica instalada perto da propriedade de terras de sua família e sua mãe Suchee não a impede. Então Miaoshan em um final de semana vai para casa, já que passava toda a semana na fábrica. Quando Suchee pensa que Miaoshan está visitando seu noivo Tsai Bing, acertando o casamento, porque ficou grávida, tem um pressentimento ruim, mas o ignora, entra no galpão de ferramentas da fazenda e se depara com Miaoshan morta. Não é spoiler, está na primeira página do livro isso.
Suchee chama a autoridade local Capitão Woo para verificar o que ocorreu com a filha, pois não acreditava que foi suicídio, mas o Capitão simplesmente a ignora e encerra o caso como suicídio por desespero de ter ficado grávida sem se casar.
Suchee não aceita isso e escreve uma carta pedindo ajuda a sua amiga Hulan que trabalha para o Ministério da Segurança Pública, é uma inspetora muito conceituada, uma Princesa Vermelha, título de famílias de alta posição dentro da China, mas é muito perseguida por pessoas que querem destruí-la e a sua família.
Hulan tem um relacionamento com David, um americano, algo nada bem visto na China, e fica mais falada por todos saberem que ela dorme com David, em outras palavras, não se casará pura.
Isso mesmo! A castidade na China é bem louvada, não há como comparar a visão mais conservadora no Brasil com a visão chinesa, eles são mais conservadores ainda. São tradições milenares mantidas de geração a geração, e com o comunismo, teve o surgimento até de um código de conduta a ser desempenhado por todos, um código de boas maneiras. Fiquei besta! Tão besta que tive dois pensamentos: o livro não condiz com a realidade e a China não fica na Ásia como eu pensava e sim em outro planeta, pois é outro mundo! O primeiro é verdadeiro, e o segundo só especulação de uma mente.
David tinha um acordo com Hulan, ela iria viver com ele nos Estados Unidos, viveriam em um país livre. Mas, Hulan tinha outras ideias e seu patriotismo é tamanho que não pretendia deixar seu país, mesmo correndo risco de morrer, ser executada pelo Estado por ter desrespeitado suas leis, mesmo sendo Princesa Vermelha de família importante e rica na China a pena era a Morte. Ainda mais que estava grávida e não tinha permissão do Estado para ter o filho... e não o abortaria...
A tensão começa no relacionamento, mas David faz parte da promotoria e estava marcado para morrer por uma máfia chinesa. Anos antes ele esteve na china e dissolveu os planos dessa máfia, e ao sair de uma lanchonete com um amigo, matam o amigo dele e não o acertam. A promotoria vê que é mais sensato que David vá defender uma empresa americana na China e permaneça em território Chinês até que descubram quem está atrás dele. Pensa na confusão... ele estaria mais seguro na China do que nos E.U.A.
David dá a notícia a Hulan, mas ela está indo para a vila de Suchee no interior desvendar o suicídio de Miaoshan e começa a maior tensão da vida dos dois. Ambos se deparam com o maior problema de todos, e engloba a empresa americana, a gleba de terras de Suchee dada pelo estado Chinês, o Governador do Estado de Suchee, e ter de enfrentar os cinco homens mais poderosos do Estado Chinês, os que comandam tudo na China. Um passo em falso, um deslize e a vida de Hulan e David acaba.
O livro me deixou tensa, muito intrigada devido o que mostra sobre a política, costumes, a implantação do comunismo, sobre a representação das princesas vermelhas no país, o relato do que as empresas fazem pensando que ali não há punição para elas e para seus representantes (mas há sim, e o Ministério de Segurança Pública é que trata disso, punição? Morte.), as intrigas entre costumes e famílias, o Estado estar presente na decisão mais simples das pessoas como: com quem se casar, se pode viajar, ter um filho, viver na cidade do seu marido (isso mesmo! Sabia que há maridos que só encontram suas esposas nas férias? Porque o Estado deu permissão para se casarem, mas por morarem em cidades diferentes e serem de funções de trabalho diferente, não permite que eles se mudem, então só se veem nas férias e isso se as férias coincidirem...).
Teve coisas com as quais fiquei pasma! Sabia que se você nasce em uma família rural com terras dadas pelo governo, seu destino futuro é o mesmo? Não pode mudar de profissão! Salvo caso uma fábrica instale na sua vila ou próximo dela e você pede permissão para trabalhar lá.
Sabia que só estrangeiros podem usufruir de ar condicionado? Que a China é muito quente e úmida no verão? Não podem usufruir de ar condicionado porque o Estado não permite...
Certo, esse livro fez meu cérebro revirar e sair fumaça pela perplexidade que fiquei. Gostaria que esse livro fosse completamente errado do que mostrou a respeito da China. Mas, há coisas boas também, só que para mim, não sei se ao colocar em uma balança ficaria satisfeita. Amo minha liberdade, por mais que seja uma pessoa quieta e pacata, que quase não faço muita coisa, mas amo decidir por mim mesma. Não consigo pensar em deixar isso de lado! E há quem diga que comunismo é bom!
Amei esse livro, não é uma leitura tediosa, é um triller muito bem construído, uma rede de intrigas com tudo presente: problemas internos, problemas internacionais, máfia, exploração infantil e de trabalho sub humano (dizer que é trabalho escravo é um elogio e gratificante). E, um romance lindo! Amei o carisma do David, e como ele ama aquela mulher, Hulan é a mulher mais sortuda do mundo! Não é todo homem que deixa tudo por uma mulher, abdicar até da vida, correr o risco de morrer por amor a uma mulher! E Hulan, não é carismática, mas me conquistou por completo, é honesta em tudo, simples, não brinca em serviço nem mede consequências para ajudar alguém, de um coração enorme, uma grande policial, filha e esposa leal! Uau!
Amei esse livro e apaixonei pela China devido o caráter de Hulan! Um triller que te deixa louca para desvendar tudo e saber como tudo ocorreu e o que está ocorrendo.
Recomendo! 

... Você pode fugir, mas não pode se esconder. É melhor ter vivido e perdido do que nunca ter vivido. Você não sabe se gosta de espinafre antes de experimentar                                                                                                          - Não são provérbios, David! São clichês.                                                                 - Pois bem, então ouça este. – Ele pegou a mão dela e beijou. – Eu nunca a deixarei, Hulan. Simples assim.



10 comentários:

  1. Olá!
    Nossa estou pasma só de ler a sua resenha...fico imaginando lendo o livro.
    Ainda acontece coisas que eu não acredito...fico chocada sabia? Pois o mundo vai evoluindo e lá não...
    Quero muito ler e entender melhor esse livro!
    Um super bjo!

    Alê - Bordados e Crochê
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    1. Alessandra o que é mais gritante, há locais muito desenvolvido em tecnologia. Não sei se conhece aquele veículo magnético desenvolvido na Alemanha, o Maglev. A Alemanha desenvolveu a tecnologia e fez um, ocorreu um acidente em 2006. A China importou a tecnologia, e é onde tem esse trem hoje como meio de transporte (30 Km em 8 minutos) em Xangai. É desenvolvida em algumas coisas, e em determinados locais lá dentro, e em outros não há o mínimo para sobrevivência. Um disparate. Também fico chocada! Compensa ler esse livro, mostra muito.

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  2. Já fiz um trabalho na faculdade sobre esse aspecto da China e fiquei bem chocada com a situação da atual República Popular da China e as conseqüências da abertura econômica que se deu após o fim da Revolução Cultural promovida por Mao Tsé Tung.
    Ótima resenha Cinthia.! Como sempre... a resenha me deixou bem curiosa em relação ao livro.

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    1. Erica como faço para ter esse trabalho seu? Tem como me enviar? Fiquei curiosa para lê-lo. Esse livro pincela sobre a Revolução Cultural e as mortes, a ascensão das Princesas Vermelhas e nele delata o benéfico das empresas para o povo Chinês, mas também mostra a exploração e outras coisas mais. O benefício: trouxeram desenvolvimento e rentabilidade para o local onde são instaladas, mudou a vida das pessoas, porque onde "escolhem" ficar são aqueles locais desprovido de tudo. Para o povo ali, é uma maravilha, mas quando li deu vontade de chorar! E ainda Hulan mostra isso e diz que a realidade do ocidente é uma, a deles é outra. O que serve para o ocidente, jamais vai servir para China. Leia, acredito que compensa. Quero ler outros livros dessa autora. Se tiver algo sobre as Princesas Vermelhas, estou louca atrás... difícil é encontrar!

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  3. Falando francamente, não tenho uma imagem boa da China desde O Último Bailarino de Mao. O que mais me incomoda lá é que nunca temos uma noção plena sobre como o país é, ninguém fala abertamente de como vive ou como é o governo. Já tem um tempo que queria saber um pouco mais sobre o país mas nunca achei um livro que realmente abordasse aspectos mais "humanos" de lá. Quando li sua resenha senti que era esse o livro que estava procurando, obrigada por me apresentar.
    E concordo com você, as vezes reclamamos mas a melhor coisa de um país como o nosso é o direito a liberdade.

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    1. Jade nunca tive um olhar bom para a China, não daria certo para mim viver em um regime daqueles. Minha irmã passou a comprar algumas roupas para usar de lá. Então, pediu ajuda para conversar com os vendedores (Chineses). A conversa é restrita porque o governo vê tudo. Sobre política (nem sonhando falam algo)mas encontrei pessoas sinceras, trabalhadoras, empenhadas e de palavra, daquelas que diz algo e não precisa de um contrato, simplesmente cumprem. Isso me encantou, pouco vemos isso aqui. Apesar dos problemas a cultura deles traz uma educação (de berço, não escolar) e faz a diferença. Lutam muito e possuem nada quase. Passei a falar com a minha irmã para reclamar menos da vida!

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    2. E nesse livro vai ver muito esse lado humano, cultura, e Hulan explica bem essa parte porque por ser uma Princesa Vermelha ela estudou e viveu parte de sua vida fora da China. Ela faz esse levantamento de contraste entre os dois "mundos".

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  4. Uau! Esse livro além de uma ficção de uma história policial bem interessante e intrigante, parece apresentar fatos reais que acontecem na China que para quem o lê pode aprender com ele. Isso é muito legal! Apesar de ter coisas injustas pelo o que li na resenha e em outros lugares, é muito bom termos conhecimento de uma cultura diferente, e se isso acontece por meio de um livro torna isso bem legal. Estou curiosa pela história, com certeza o colocarei na minha lista para saber qual o curioso final :D

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    1. Lavinia é uma viagem ao interior da China! Prepare-se!

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  5. Ai caracolis..
    Que livro é esse? Juro que olho pra capa dele e não dou nada..
    E que decepção com a China, nós vemos na TV e é tudo tão lindo né?! Infelizmente eles só mostram o que lhe convém.
    Gostei muito da sua resenha, muito explicativa e detalhista, mas sem contar o desfecho da história.. Muito boa mesmo!!! Parabéns!

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:) :( ;) :D :-/ :P :-O X( :7 B-) :-S :(( :)) :| :-B ~X( L-) (:| =D7 @-) :-w 7:P \m/ :-q :-bd

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