25 março, 2015

Eu Sou Proibida

Eu Sou Proibida - Na Transilvânia, em 1939, o pequeno Josef Liechtenstein presencia o assassinato de sua família pela Guarda de Ferro Romena e é salvo por uma empregada gentia, que o cria como se fosse seu filho. Passados mais cinco anos, Josef salva Mila quando os pais da menina são mortos, e a ajuda a chegar à casa de Zalman Stern, um líder da comunidade Satmar que a partir de então a cria como irmã de sua filha mais velha, Atara. À medida que as duas amadurecem, a fé de Mila se intensifica, ao passo que sua irmã descobre um mundo de livros e aprendizagem que não consegue ignorar. Com a ascensão do comunismo na Europa Central, a família muda-se para Paris, onde Zalman tenta criar seus filhos, mantendo-os reclusos da cidade. As escolhas acabam levando as irmãs para caminhos opostos. Partindo da zona rural da Europa Central pouco antes da Segunda Guerra, passando por Paris e chegando a Williamsburg, no Brooklyn dos dias de hoje, Eu sou proibida dá vida a quatro gerações de uma família chassídica. Uma trama aliciante e arrebatadora que revela o que acontece quando amor resoluto, fé inquebrantável e séculos de tradição entram em conflito.

 Livro único
Anouk Markovits
264 páginas
Companhia das Letras


Gente, esse é um livro diferente, e para compreender o contexto inicial dele é preciso ter em mente que uma comunidade judaica é unida, e principalmente para seu líder, é um dever conhecer todos. E, tire de sua cabeça que todo o povo judeu é Chassidim, não é.  Feito isso, você precisa saber que esse livro não é uma obra biográfica, mas Anouk Markovits foi criada em um dos grupos judaicos mais fechados existentes e pouco conhecido pela maioria das pessoas, os Chassidim. Por isso, o livro além de ser um romance é também uma rica fonte de informação para aqueles que querem saber mais a respeito e não tem contato com eles – algo que é bem difícil de ocorrer... Vamos à história...

Zalman Stern é um líder, e conhece a família Lichtenstein e a família Heller. Tudo decorre inicialmente a respeito de o pequeno Josef Lichtenstein ao ser encontrado pela empregada, uma não judia que o salva, muda seu nome para Anghel, o batiza na igreja católica e o ensina a não ser judeu, pelo simples fato de estarem na Transilvânia em 1939 (historicamente – Segunda Guerra Mundial) quando os judeus estavam sendo perseguidos e mandados para os campos de concentração. Assim, para salvar a vida de Josef, ela faz de tudo, abandona sua vida e o faz seu filho.

Por causa da perseguição aos judeus, os pais de Mila Heller (Gershon Heller e Judith) são perseguidos e Mila acaba sendo salva por Josef e enviada para Zalman. Zalman toma conhecimento de Josef e tenta mudar seu destino. A história começa assim e se desenvolve dentro da família de Zalman, sua filha Atara e Mila. Criadas como irmãs, a primeira com o espírito de liberdade e a segunda com o espírito submisso. Dois destinos completamente diferentes, uma mostra a continuidade a qualquer preço dentro da tradição Chassídica, e a outra a procura em seguir suas convicções.

Mila, pela perda de seus pais, cria um vínculo maior à crença de um dia encontra-los, e por isso não pode desviar do caminho deles. Atara é filha de um líder e nada mais é esperado dela do que ser um exemplo. Só que as coisas não são dessa forma. Atara começa a ler livros e começa a ver que há muito mais do que lhe fora contado, começa a questionar, avaliar seu mundo e isso gera todo tipo de conflito em casa, na comunidade e na escola. Como um pai líder de uma comunidade consegue segurar uma garota que deseja ser médica, sendo que às mulheres só é devido cuidar do lar e dos filhos? 

Atara queria silenciar a cantoria; queria falar, em alto e bom som, para que todas as moças ouvissem; queria partilhar com elas que na biblioteca de Paris ela tinha lido que os nazistas poderiam ter sido derrotados muito antes se forças tivessem se unido, mas líderes religiosos, receando a assimilação, optaram por se organizar contra os bolcheviques que estavam combatendo os nazistas, optaram por não se unir com judeus menos religiosos ou seculares. A boca de Atara se abriu, mas o que saiu foi um som parecido com o balir de uma ovelha. Tapou os ouvidos com a mão, para bloquear os balidos que ecoavam. Saiu aos tropeções.

O desenvolvimento dado à obra é muito elaborado, recheado de conflitos, e o que me deixou maravilhada foi ficar imersa na narrativa e não ver nenhum julgamento por parte da autora. É um livro construído para ser lido, de fatos expostos, uma história contada, concisa e límpida, que passa sentimento, com personagens perfeitamente caracterizados segundo o contexto da tradição Chassídica, sendo que o julgamento fica a parte do leitor, daquilo que ele consegue captar do livro.

Não esperem por uma leitura romântica e leve – se procura um romance meloso, ou erótico, esse não é o livro a ser lido -, é uma leitura densa, e apesar de a escrita da autora ser maravilhosa, há muitos termos em ídiche e  transliteração do hebraico não  traduzidos – nem deveriam –  só que a editora optou por notas de fim, então, para quem não tem costume com os termos pode ser cansativo.

Você caiu sob más influências e vai voltar a agir com sensatez, você precisa, ou então vou trancar você neste apartamento até o dia de acompanha-la para o dossel de matrimônio. E ouça bem: se você não seguir o caminho do seu pai, vai fracassar em tudo que se propuser a fazer. Vai afundar de uma depravação para outra. Vai vagar pelo mundo sem nunca encontrar um lar.

Terminei dizendo para mim: “Puxa, mulher (autora) corajosa!” Mas, tenho de lhe dizer que talvez o livro não tenha o mesmo impacto em todos, depende da sua maneira de ver o mundo. Durante toda a leitura meus sentimentos ficaram se contrapondo e avaliando a exposição de diversas visões do amor e de amar, a traição exposta de formas tão diferentes e únicas, por fim, o sentimento de “e se as atitudes/escolhas tivessem sido diferentes” tudo não teria sido mais simples? O ser humano complica tudo!


Foi o tipo de livro que não consigo traduzir o que senti ao terminar, creio que contrita e pensando, por sua riqueza em sentimentos, em conteúdo e elaboração, e que não deixa de ser lindo. Só me pergunto o quanto de tudo não foi parte da vida da autora. Recomendo, só não esperem um romance comum.

Eu sou proibida, e assim são meus filhos e os filhos de meus filhos, proibidos por dez gerações, homens ou mulheres.





20 comentários:

  1. Fiquei intrigada depois dessa resenha. A história tem cara de ser intensa e bem estruturada. Vou ver se leio, pois nunca li nada deste tipo antes. Espero apreciar. Pela resenha que você colocou aqui, fiquei empolgada.
    Beijos.

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    1. Beth, é sim. A estrutura em que foi composto me surpreendeu, a autora conseguiu mostrar sobre os Chassidim como nunca vi antes. Foi o melhor livro que li esse ano, até hoje.

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  2. Caramba, Cinthia!!!!
    que resenha!!!
    Fiquei extremamente curiosa por essa leitura!
    Ainda que você diga que o olhar sobre o livro pode diferir (algo que amo, essa possibilidade de diversas opiniões e visões), creio que assim como você, eu vá achar a autora maravilhosa.
    Parabéns pela resenha Cinthia e por me deixar com água na boca pelo livro.
    =D7

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    1. Telma, é recheado de tudo o que você ama, e ainda tem o lado psicológico de todas as consequências em cada família, e pessoa. Não poderia falar nada a respeito e nem do romance, contaria o livro, as surpresas, mas para cada personagem, até aquele que foi só citado, sem grande representação, ela o amarra em tudo e o torna parte daquilo que menos se espera. E, mostra ainda aquela parte da mentira e tudo mais. Para mim, um maravilhoso livro! A editora acertou.

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  3. Cinthia, acho um mega desafio escrever sem colocar nossos juízos de valor no texto.
    Então só isso me atraiu muito!
    Fora que eu tenho muito interesse por estórias no contexto da Segunda Guerra, principalmente se abordar a luta dos Judeus pela vida.

    Parabéns pela resenha. Eu adorei!!

    Um abraço!

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    1. Luan, devido a isso terminei o livro e fiquei boquiaberta, sei o quanto ela colocou ali, achei o trabalho incrível.

      Apesar de ter o contexto histórico, esse não foi o foco do livro - a Segunda Guerra. Mostra pouco sobre a Guerra, mais sobre os Chassidim, sua forma de pensar, crer e portar junto ao mundo e aos seus. O desenvolvimento ocorre dentro da comunidade, sobre a vida e escolhas entre Atara e Mila, suas descobertas e aceitação - ou não aceitação - dessas descobertas.

      Obrigada, para você também.

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  4. Quanta tensão!
    Acredito que deva realmente ser um livro tenso, dado pelo contexto histórico, a diversidade da cultura e a quantidade de informações que você mencionou. Gosto de livros assim! Já entrou para a minha lista.

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  5. Já havia visto o livro antes, mas nem tinha me interessado por ler. A resenha não ajudou muito, mas gostei do jeito com que escreve. Parabéns!

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    1. Obrigada Orlando. Esse livro para ler, deve ter interesse, amei sua sinceridade!

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  6. Cinthia!
    suas leituras são sempre profundas e enriquecedoras.
    Já vi várias reportagens sobre os Chassidim, comunidade restrita, fechada em seus próprios preceitos de vida, mas quem somos nós para julgá-los.
    Imagino mesmo que o livro seja cheio de conflitos, principalmente por causa de Atara.
    A dica é maravilhosa!
    Muita luz e paz! E um domingo esplendoroso!
    Cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

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    1. Rudy, pior que é um pouco ao contrário, não foi bem Atara que trouxe tantos conflitos.... o livro surpreende o leitor.

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  7. Nossa que resenha profunda. A história parece ser enriquecedora para o leitor.
    Conseguiu me convencer a colocá-lo na minha lista.

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    1. Fico feliz em saber! Espero que goste.

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  8. Cinthia, os livros que nos deixam em suspenso são os melhores. Particularmente, gosto dos livros que permanecem por um tempo em nossa memória reflexiva e que por um tempo, não conseguimos nos livrar deles.

    Não conhecia este livro, me parece muito interessante, dica anotada.

    :D

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  9. lendo a resenha parece ser um livro interessante, vou até dar uma procurada para ler ele assim que der.

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  10. Olá, tudo bem?
    O livro pelo visto é muito interessante, mas eu não fiquei com vontade de ler ele, pois não faz muito o meu estilo, e o enredo não me convenceu, mas adorei saber sua opinião.
    Beijos *-*

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  11. Confesso que sua resenha me surpreendeu e muito, desejo esse livro desde o lançamento e sempre tive muita curiosidade de ler e saber mais sobre exatamente o que tratava, mas sua resenha levou minhas expectativas para a estratosfera.
    Usar a Segunda Guerra como fundo para contar história sobre judeus é comum, mas essa tem suas peculiaridades como não focar muito na parte histórica e sim na comunidade judaica mesmo, contando mais sobre esse povo que tanto sofreu, ver a atitude de Zalman querendo "resgatar" as tradiçoes de Josef, acolhendo Mila e tendo que conter os questionamentos de Atara, a parte mais desafiadora e que pode não agradar a maioria é não conter juízos pré concebidos cabendo ao leitor tirar suas próprias opiniões e torcer ou não pelos personagens, como você disse uma obra que nos leva a pensar no que faríamos no lugar de cada um deles e ainda obter conhecimento, só pela capa já dá para imaginar o que nos espera. Parabéns pela resenha!

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  12. Passeando por aqui encontrei esse livro maravilhoso. Essa resenha me ganhou totalmente!

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  13. Pela capa já imaginei algo bem intenso
    e a resenha me confirmou isso
    acredito quer o livro seja realmente bom, pois um tema pesado pra receber 5 estrelas né qualquer um não
    e concordo super com você
    o ser humano complica tudo

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